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Política POLÍTICA

Demissão de Azevedo da Defesa ocorreu em conversa de menos de 5 minutos

A demissão de Azevedo surpreendeu o meio político e militar. De acordo com interlocutores do Planalto, o presidente queria trocar o comando do Exército, retirando do cargo o general Edson Leal Pujol

30/03/2021 07h19
Por: Jornalista Adilson Oliveira Fonte: CB
(crédito: Valter Campanato/Agencia Brasil)
(crédito: Valter Campanato/Agencia Brasil)

Em uma conversa rápida, que durou menos de cinco minutos no Palácio do Planalto, o presidente Jair Bolsonaro demitiu o então ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva. Com o gesto, abriu uma crise com militares, distanciou-se do Supremo Tribunal Federal (STF) e despertou novos críticos no Congresso. Incomodado com a gestão de Azevedo, que não aceitou interferências políticas nas Forças Armadas, e irritado com uma entrevista do general Paulo Sérgio, chefe do Departamento-Geral de Pessoal do Exército, publicada no último domingo pelo Correio, o chefe do Executivo decidiu trocar a gestão na pasta e alçar ao posto o general Braga Netto, que até ontem ocupava a Casa Civil de seu governo. A decisão ocorreu horas após o então ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, deixar o governo.

No entanto, ao contrário de Araújo, cujo afastamento era esperado, a demissão de Azevedo surpreendeu o meio político e militar. De acordo com interlocutores do Planalto, o presidente queria trocar o comando do Exército, retirando do cargo o general Edson Leal Pujol. Não é a primeira vez que Bolsonaro faz investidas do tipo — tentou também no ano passado. A troca de um comandante da força terrestre antes da conclusão do prazo de dois anos de gestão é considerada de elevada gravidade no meio militar. O presidente vinha exigindo mais provas da lealdade das Forças Armadas, o que incomodava Azevedo. No domingo, Bolsonaro leu a entrevista com o general Paulo Sérgio e se irritou com o conteúdo.

Ao Correio, o general destacou que a taxa de mortalidade por covid-19 do Exército é de apenas 0,13%, enquanto na população em geral é de 2,5%. Para evitar mortes, a força-terrestre adotou campanhas maciças de distanciamento social, uso de máscaras, isolamento, testagem em massa e investiu pesado em logística para garantir suprimentos hospitalares e equipes médicas nos 60 hospitais da força.

Além disso, o protocolo do Exército prevê o uso de medicamentos recomendados pela OMS e pela Anvisa para tratar doentes internados. O uso de hidroxicloroquina, azitromicina e de outros remédios sem eficácia científica comprovada contra o coronavírus não é indicado. Paulo Sérgio, que é a autoridade máxima de saúde no Exército, também destacou que a força se prepara para uma eventual terceira onda da pandemia, começando por Manaus.

Lealdade e mudanças

Com a saída de Azevedo, o Ministério da Defesa passa a ser ocupado pelo general Braga Netto, que estava na Casa Civil, e é leal ao governo. O temor nas Forças Armadas é de que Braga Netto interfira nas corporações, demita Pujol e aplique punições a Paulo Sergio, trocando-o de área. Em nota pública, Azevedo agradeceu o tempo que permaneceu no governo, mas fez uma crítica indireta às intenções do Executivo, destacando que no cargo, preservou a missão institucional das tropas. “Agradeço ao presidente da República, a quem dediquei total lealdade ao longo desses mais de dois anos, a oportunidade de ter servido ao país, como ministro da Defesa. Neste período, preservei as Forças Armadas como instituições de Estado”, disse.

Uma ala dos militares da ativa já estava insatisfeita com o governo e tentava traçar uma linha de atuação após a exposição das instituições por parte das relações entre Bolsonaro e Azevedo. No primeiro semestre do ano passado, o ex-ministro foi levado a sobrevoar manifestações antidemocráticas, e assinou uma nota junto com o general Augusto Heleno, do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), falando em “consequências imprevisíveis” em razão de se aventar a possibilidade de apreensão do celular do presidente em meio às investigações sobre suposta interferência na Polícia Federal.

Supremo

Azevedo era a ligação do governo com o Judiciário, pois tinha sido assessor do ministro Dias Toffoli, ex-presidente do Supremo. Desde que saiu da Corte para ocupar uma vaga no Planalto, mantinha contatos frequentes com os ministros do Supremo, tanto com Toffoli quanto com o atual presidente do tribunal, Luiz Fux. Ele era visto como um anteparo entre o presidente e investidas antidemocráticas, e uma segurança de que o Exército estaria sempre ao lado da democracia em qualquer situação.

A avaliação no Supremo é de que Azevedo deixou o cargo por não ser ouvido pelo presidente, por ter se recusado a politizar as Forças Armadas e ser contrário a uma abertura ainda maior no governo para o Centrão — grupo que ganha espaço com a troca na Defesa e em outros cinco ministérios. Preocupado com o cenário após a troca de comando na Defesa, o ministro Fux ligou para Azevedo. Ouviu do militar que, mesmo deixando o governo, continuará seu trabalho no Exército para garantir o respeito à Constituição e as responsabilidades como uma instituição de Estado. De acordo com interlocutores de Fux, o presidente do Supremo tranquilizou-se após a conversa. A avaliação na Corte é a de que o general Braga Netto também terá bom diálogo e que a força não vai se curvar às vontades do governo.

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