Terça, 20 de Outubro de 2020
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Política BOLSONARO NA ONU

Discurso de Bolsonaro na ONU reforça visão do governo contra onda de críticas

Em discurso às Nações Unidas, chefe do Planalto minimiza a devastação da Amazônia, responsabiliza índios e caboclos pelas queimadas e afirma que o Brasil sofre uma "das mais brutais campanhas de desinformação". Várias citações do mandatário são contestadas

23/09/2020 08h37
Por: Jornalista Adilson Oliveira Fonte: CB
(crédito: @minluizramos)
(crédito: @minluizramos)

No Brasil do presidente Jair Bolsonaro, as queimadas são provocadas por índios e caboclos. O país também é vítima de uma campanha global de desinformação sobre a devastação na Amazônia e no Pantanal, sustentada por nações que buscam prejudicar o agronegócio nacional. Em relação à pandemia da covid-19, a responsabilidade por aproximadamente 140 mil mortes e 4,6 milhões de casos recai sobre governadores e prefeitos, pois o governo federal está impedido pela Justiça de tomar providências sanitárias contra o avanço do novo coronavírus. Esse é o retrato do Brasil que o chefe do Executivo apresentou ao mundo ontem.

Com informações altamente contestadas e dados que não correspondem à realidade, o presidente Jair Bolsonaro discursou na 75ª edição da Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Em um pronunciamento de cerca de 15 minutos, transmitido em vídeo , Bolsonaro amenizou o impacto das queimadas nas florestas do Brasil em 2020 e eximiu-se da responsabilidade pelas mortes no país por covid-19. Bolsonaro sinalizou às demais lideranças internacionais de que está mais preocupado em defender a soberania do Brasil, deixando de lado o apelo da instituição por mais cooperação e multilateralismo na comunidade internacional.

Bolsonaro não citou que uma área de pelo menos três milhões de hectares da Amazônia, do Pantanal e de outros biomas do país já foi consumida pelas chamas apenas neste ano. Alegou que tem sido vítima “de uma das mais brutais campanhas de desinformação” sobre o meio ambiente. E, apesar do registro, desde janeiro, de cerca de 148 mil focos de incêndios florestais espalhados pelo Brasil, o presidente garantiu que “nossa floresta é úmida e não permite a propagação do fogo em seu interior”.

O chefe do Executivo também responsabilizou os focos de incêndio a moradores locais e comunidades indígenas. “Os incêndios acontecem praticamente, nos mesmos lugares, no entorno leste da floresta, onde o caboclo e o índio queimam seus roçados em busca de sua sobrevivência, em áreas já desmatadas”, acusou Bolsonaro. “A Amazônia brasileira é sabidamente riquíssima. Isso explica o apoio de instituições internacionais a essa campanha escorada em interesses escusos que se unem a associações brasileiras, aproveitadoras e impatrióticas, com o objetivo de prejudicar o governo e o próprio Brasil”, continuou o presidente.

Ao se defender das críticas que tem sofrido por conta dos incêndios nos biomas, Bolsonaro alegou que há uma tentativa da comunidade internacional em desmerecer os bons resultados do Brasil na exportação de alimentos por disputa comercial. O presidente também afirmou que o país é líder em conservação de florestas tropicais, a despeito de estatísticas dizerem o contrário. Disse, ainda, que tem “tolerância zero com o crime ambiental” e que “os focos criminosos são combatidos com rigor e determinação”.

“Juntamente com o Congresso Nacional, buscamos a regularização fundiária, visando identificar os autores desses crimes. Estamos ampliando e aperfeiçoando o emprego de tecnologias e aprimorando as operações interagências, contando, inclusive, com a participação das Forças Armadas.”

Pandemia

Assim como tem dito nas transmissões ao vivo pelas redes sociais ou no contato com apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada, Bolsonaro jogou a culpa pelos números elevados da crise do novo coronavírus no colo de governadores e prefeitos. Segundo o presidente, são eles que devem combater a doença, por conta da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que delegou aos chefes de estados e municípios a competência de estabelecer as políticas de enfrentamento à pandemia.

Por causa das condições estabelecidas pela Justiça, Bolsonaro disse que restou ao governo federal apenas repassar recursos. Para enaltecer as ações adotadas pela sua gestão, ele superestimou o valor do auxílio emergencial, que teria sido de mil dólares a cada um dos 65 milhões de beneficiários. Segundo o chefe do Executivo, o auxílio emergencial é “o maior programa de assistência aos mais pobres no Brasil e talvez um dos maiores do mundo”.

Além disso, o presidente disse que a imprensa é responsável pelos efeitos da pandemia. “Desde o princípio, alertei, em meu país, que tínhamos dois problemas para resolver: o vírus e o desemprego, e que ambos deveriam ser tratados simultaneamente e com a mesma responsabilidade. Como aconteceu em grande parte do mundo, parcela da imprensa brasileira também politizou o vírus, disseminando o pânico entre a população. Sob o lema “fique em casa” e “a economia a gente vê depois”, quase trouxeram o caos social ao país”, acusou.

Direitos humanos

Bolsonaro falou de outros temas além de meio ambiente e da pandemia. Disse que “o Brasil tem os princípios da paz, cooperação e prevalência dos direitos humanos inscritos em sua própria Constituição, e tradicionalmente contribui, na prática, para a consecução desses objetivos”. O presidente também declarou que está comprometido com o respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais. Disse que repudia o terrorismo em todo o mundo e atacou a Venezuela ao dizer que o país é culpado pelo “criminoso derramamento” de óleo no litoral brasileiro em 2019, sem apresentar provas.

Apesar de o foco da Assembleia-Geral deste ano ser o de reafirmar o compromisso coletivo das Nações Unidas com o multilateralismo, Bolsonaro reforçou na sua fala que vai priorizar a independência do Brasil. E defendeu os regimes ditatoriais de Emirados Árabes Unidos e Bahrein.

O único elo internacional que Bolsonaro ressaltou foi o com os Estados Unidos. O mandatário brasileiro elogiou os tratados de paz coordenados pelo presidente Trump para alguns países do Oriente Médio. Defendeu, ainda, a liberdade religiosa e o combate à cristofobia, pautas que interessam ao colega norte-americano. “O Brasil é um país cristão e conservador e tem na família sua base”, definiu Bolsonaro.

Se a mídia critica,“é porque foi bom”

Como a Assembleia-Geral deste ano não reuniu os chefes de Estado na sede da ONU em Nova York por conta da pandemia do novo coronavírus, Bolsonaro e outros presidentes enviaram vídeos à organização com os seus discursos. O mandatário brasileiro assistiu ao seu pronunciamento no Palácio do Planalto, ao lado de um dos filhos, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), ministros e outros parlamentares. À noite, ao conversar com apoiadores na entrada do Palácio da Alvorada, Bolsonaro elogiou a própria fala. “Se a mídia está criticando, é porque o discurso foi bom”.

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