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Política POLÍTICA

Racha no Centrão antecipa disputa pela Câmara e atormenta o Planalto

O movimento de saída do DEM e do MDB do Centrão surgiu porque os partidos perceberam que Arthur Lira usava o bloco para se colocar como futuro comandante da Câmara

03/08/2020 09h26
Por: Jornalista Adilson Oliveira Fonte: CB
Rodrigo Maia está na Presidência da Câmara dos Deputados desde julho de 2016: próximas eleições em fevereiro de 2021 (foto: Najara Araújo/Câmara dos Deputados)
Rodrigo Maia está na Presidência da Câmara dos Deputados desde julho de 2016: próximas eleições em fevereiro de 2021 (foto: Najara Araújo/Câmara dos Deputados)

A nova correlação de forças dos partidos turbinou a disputa pela Presidência da Câmara dos Deputados e colocou o presidente da Casa, Rodrigo Maia, e o líder do Centrão, Arthur Lira (PP-AL), em campos quase opostos. Embora o próprio Maia tenha se referido ao movimento de saída de seu partido, o DEM, do Centrão como algo natural, para a maioria dos congressistas, um dos recados foi claro: ele não quer passar o bastão de comandante da Câmara para Lira, na eleição marcada para fevereiro de 2021. Essa é a principal disputa antes da briga pela Presidência da República em 2022 e, consequentemente, colocará fogo na relação entre aliados do governo de Jair Bolsonaro, podendo, inclusive, respingar no presidente, caso ele erre a mão na hora de escolher quem apoiar.

O movimento de saída do DEM e do MDB do Centrão surgiu porque os partidos perceberam que Arthur Lira usava o bloco para se colocar como futuro comandante da Câmara. Ou seja, “sentou na cadeira antes da hora”, conforme deputados comentam nos bastidores. E, assim, passou a se aproximar do governo, como detentor de 220 votos. O governo, óbvio, adorou. Só teve um problema: o Planalto achou que, ao negociar com Lira, poderia prescindir de Rodrigo Maia e de outros. Não foi bem assim.

 O encolhimento do Centrão, ao mesmo tempo em que dá independência aos outros líderes na hora de conduzir as votações em plenário — e, por tabela, mais autonomia na hora de negociar com o governo —, abre, também, o leque de candidatos ao comando da Câmara. O ocupante desse cargo estratégico detém o poder de definir a pauta da Casa e o andamento de pedidos de impeachment. Daí, a ansiedade do governo em ter ali um aliado do presidente da República. Mas será preciso muito jogo de cintura para controlar uma Câmara pulverizada, com sérios reflexos no Senado.

 Sabe-se, agora, que Lira, o nome que chegou mais cedo à disputa nos bastidores, queimou a própria largada. Ele sabia que não era o número um nas apostas de Maia, que, dentro do PP, tem preferência por Aguinaldo Ribeiro, líder da Maioria e relator da reforma tributária. Ribeiro, entretanto, só conseguirá emplacar seu nome se Lira se inviabilizar como candidato, uma vez que não tem os votos dentro do próprio partido para emplacar como candidato contra o deputado alagoano. Ciente disso, Lira tratou de tentar fortalecer-se dentro do Centrão, de forma a sufocar outros postulantes. Foi com tanta sede ao pote que outros interessados perceberam e pularam fora do Centrão para enfraquecê-lo enquanto pré-candidato. Essa é a leitura dos bastidores de todo esse movimento.

 Com Lira enfraquecido, outros nomes lançaram-se discretamente. O principal deles é o líder do MDB, Baleia Rossi, que joga junto com Maia e deixou o Centrão no mesmo momento do DEM. Ainda tem nessa lista o vice-presidente da Câmara, Marcos Pereira, e o deputado Marcelo Ramos (PL-AM), cujo partido ainda continua no Centrão e tem no líder Wellington Roberto parceiro fiel de Arthur Lira dentro do grupo. O grupo PTB, Pros, que deixou o Centrão para se aliar ao PSL, também pretende adquirir mais independência para essa disputa e força para negociar com o governo. Esse bloco deve crescer com a adesão do PSC.

 Todos no radar 

A primeira reação de Lira foi conceder entrevistas minimizando a saída dos partidos do Centrão. A segunda, porém, foi chamar os líderes e cobrar, numa reunião fechada, apoio ao bloco. Por enquanto, com sessões virtuais e distanciamento social entre os políticos, as conversas não se aceleraram. Mas estão todos em campo. Há quem aposte que Lira ainda vai dar o troco naqueles que tentam puxar seu tapete desde já na disputa pela Presidência da Câmara.

 As cartas estão sendo colocadas na mesa. E o Palácio do Planalto conscientizou-se de que Rodrigo Maia está mais forte do que nunca, mesmo a seis meses de deixar o comando da Câmara. Maia articula para que o DEM e o MDB formem, com o PSDB, uma frente de centro independente, ou seja, nem governista nem de oposição. É nesse ponto que a candidatura de Baleia Rossi à sucessão de Maia cresce — sobretudo, se Aguinaldo Ribeiro não conseguir que o PP lhe dê a candidatura à Presidência da Câmara.

Presidente nacional do MDB e líder do partido na Câmara, Baleia aparece como um dos nomes fortes na disputa, porque, dificilmente, o DEM tentará um candidato próprio. Autor da PEC 45, principal proposta de reforma tributária da Câmara, o emedebista tem evitado comentar publicamente a sucessão na Casa, ponderando que a prioridade é ajudar o país a sair da crise provocada pelo novo coronavírus.

 O deputado Marcelo Ramos está tentando encaixar-se no radar de Maia para sucedê-lo em fevereiro de 2021. Cumprindo o primeiro mandato de deputado federal, é próximo do presidente da Câmara, que o escolheu, por exemplo, para presidir a comissão especial da reforma da Previdência. E o parlamentar amazonense também goza da simpatia dos partidos de centro e de esquerda. E é esse diferencial que tem levado o grupo de Maia a fazer sondagens com a oposição, que tem o peso de 131 votos (possivelmente, 30 a mais que o Centrão bolsonarista).

 “É óbvio que eu fico feliz por estar no primeiro mandato, ser deputado de um estado que só tem oito entre 513 deputados e ser reconhecido por meus colegas. Isso me deixa muito feliz. Agora, mais do que a minha felicidade, do que meu desejo de ser presidente da Câmara, tenho de ter responsabilidade com o país. Antecipar o processo eleitoral da Câmara é dividi-la no momento em que ela precisa estar unida para aprovar medidas que ajudem o Brasil a enfrentar os efeitos sanitários, econômicos e sociais dessa crise”, diz Ramos. 

Salão de festas

O analista político Melillo Dinis compara o afastamento do DEM e do MDB dos partidos do Centrão, para uma posição de independência, com movimentos de um baile, cujo ápice será a eleição do próximo presidente da Câmara. “É como se, em uma festa, eles largassem o par dançante e fossem para o meio do salão. Em um salão de festas, o baile está rolando. E antes da coroação da rainha, vão para o centro da sala os dois partidos que se uniram como aliança democrática que serve de funcionamento há muito tempo. Eles vão para o salão de festas, dançam com a oposição, dançam com os dissidentes do PSL, você tem a festa acontecendo e, agora, eles estão no centro do salão”, descreve.

 Mas, ao mesmo tempo que a ação do DEM e do MDB enfraquece o Centrão e favorece um candidato independente, a oposição, tida como fiel da balança, equilibra-se na corda bamba, sem unidade. Para Mellilo, o grupo, principalmente o PT, terá de decidir se ajudará na construção de um candidato independente em detrimento de um bolsonarista, ou se seguirá brigando por hegemonia. “Esse é o dilema. Se ajudam na construção da direção da Casa, para que funcione como anteparo e contenção ao governo central, ou se fazem um movimento de atrapalhar em nome de uma ortodoxia de não se misturar com o Cidadania ou com o PDT. O PT tem no (Carlos) Lupi uma pessoa que sempre defendeu o Lula, mas tem o Ciro (Gomes) com ressentimento do PT. Tenho a impressão de que o baile se acelera, e saímos da valsa do primeiro semestre, para ritmos mais animados. Uma salsa ou um forró. Quando chegar em novembro, dezembro, vai ser um rock pesado”, compara.

Por último, o analista avalia a situação de Bolsonaro, que, com o Centrão enfraquecido, deu cargos e levou “gato por lebre”. “Não sei se o Centrão é o centrão, o centro ou o centrinho. E é nisso que dá colocar general para fazer articulação política. Eles compraram cartucho de munição sem pólvora. O que foi vendido não se consolidou. Não há unidade no Centrão. Não há disciplina. E não tem, sequer, esse numerário todo que estão vendendo para a articulação política do planalto. Mas tem outro problema. Eles não estão nisso pelos olhos e pela cloroquina do presidente. Estão em uma relação de toma lá dá cá e não confiam no governo, que não consegue, sequer, atender a pleitos dos membros do Centrão nem oferecer cargos sem ataques da ala radical de apoiadores”, alerta.

O pêndulo bolsonarista

Professor de história contemporânea da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e um dos organizadores do Observatório da Extrema Direita (OED), Odilon Caldeira Neto comenta a dificuldade do presidente Jair Bolsonaro de sustentar o discurso radical, ao mesmo tempo em que costura para influenciar a troca de presidente da Câmara dos Deputados. Ele também enxerga viabilidade de um dos deputados radicais da tropa de choque de Bolsonaro ocupar o assento.

 “Eu não diria que haverá uma candidatura da extrema direita, que, por definição, é mais radical, e tem como enunciação a condição antidemocrática. Ela não aceita e não quer jogar o jogo segundo as regras. Mas, se a gente pensar para além das questões terminológicas, tem a necessidade de o governo se enquadrar nas dinâmicas das regras do jogo. É uma operação complexa para o bolsonarismo, enquanto governo, estabelecer essa relação de jogo político”, avaliou.

 Caldeira explica que, até a eleição do presidente da Câmara, Bolsonaro terá de fazer dois discursos: o antissistêmico, para o núcleo de apoiadores; e o da Câmara, institucional. Mas o primeiro enfraquecerá o segundo. Para o professor, mesmo que consiga um candidato do Centrão mais moderado como representante, o presidente não poderá abandonar o discurso ideológico.

 “Olhando a experiência do bolsonarismo, é uma articulação difícil, que vem com uma concessão do Centrão, que é perspectiva do jogo político e tem de fazer a prática da ultradireita. Então, é difícil ver o governo na Presidência da Câmara. Mas, de um modo mais efetivo, eu poderia dizer: essa medida de institucionalização do bolsonarismo na Presidência não vai significar o declínio do discurso, até porque pode ser usado como argumento para os jogos políticos que virão”, refletiu.

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